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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

HISTÓRIAS DO MG E EU


Foram muitas as aventuras que eu e aquele conversível com volante do lado contrário vivenciamos na década de 70. Algumas já foram contadas neste blog, outras não, como esta a seguir: Certa vez eu,  meus irmãos e um primo fomos a um baile num clube de um subúrbio do Rio, mais precisamente no Social  Ramos Clube. Era uma festa de formatura de uma turma de um colégio e como conhecíamos alguns dos formandos, la fomos nós. Depois de vararmos a Avenida Brasil embicamos para Bonsucesso, onde hoje se inicia a Linha Amarela e descemos na Rua Uranos até chegarmos a Ramos, que é um bairro logo depois. O Clube ficava numa rua alta e possuía, por conseguinte, uma ladeira. Como o MG estava com problemas no motor de arranque e para não pagar mico, parei numa rua atrás, que era uma ladeira propícia para o tranco. Sentamos numa mesa no final do salão para melhor apreciarmos o baile. Logo, outras mesas foram anexadas à nossa e, quando vimos, havia cerca de trinta pessoas comendo e bebendo à vontade no nosso grupo. Perto do final do baile o meu primo achou que a conta seria muito alta e que só tínhamos nós de homens para ratear as despesas, já que naquela época as garotas não pagavam nada, só levavam uma bolsa pequena com os apetrechos femininos, mas nada de dinheiro. A sua ideia então, era que fôssemos dançar e no meio da dança iríamos embora sem pagar nada. Falei que isto não daria certo, pois tinha algumas pessoas que já estavam nos olhando devido ao grande consumo de coisas que não paravam de chegar as nossas mesas. Também lembrei da dificuldade que o carro tinha em pegar, necessitando  de ser empurrado. Ele e meus irmãos falaram, então, que se eu estava com medo, era para ir primeiro para o carro, deixá-lo ligado e assim que pudessem eles iriam também. Assim se deu, saí do clube, fui para o carro e deixei a chave ligada na ignição. Passados alguns minutos, ouço uma correria e gritos de pe...e...e..ga, pe...e..e.....ga. pe....e...e...ga. O carro foi empurrado ladeira abaixo e pegou no tranco. Quando chegamos embaixo na Rua Uranos, descobrimos que meu primo havia ficado para trás. Não havia jeito de ir embora sem ele. Por isto, estacionei o carro longe do clube e voltei por outro lado, como quem não havia saído do baile. Procurando por meu primo fui até a parte de baixo do clube e o vi cercado de seguranças, oferecendo o seu caro blazer, que era de tropical inglês para saldar a conta. Falei na maior cara de pau que eu não havia saído do baile e que era o responsável pela conta e que estava ali para pagar a dívida, o que de fato ocorreu. Depois de pagar as despesas de mais de trinta pessoas que comeram e beberam sem parcimônia,  aí é que eu vi o que é um verdadeiro tranco. Mas tudo bem, naquela época, bem diferente de hoje,  era época  de vacas gordas, pois trabalhava num cartório de protesto de títulos, onde dinheiro não era problema. Havia o bastante para qualquer situação de emergência, sem prejudicar as minhas responsabilidades. Alguns dias atrás, recebi um telefonema de um colecionador de carros residente na Barra da Tijuca, no Nova Ipanema. Disse que depois de muitas dificuldades ele conseguira me localizar e que ele era o atual proprietário do MG. Só que estava com o recibo sem a minha assinatura e queria ver o que eu podia fazer para ajudá-lo. Pensei: se passados tantos anos, o carro ainda estava em meu nome é porque ele ainda faz parte da minha vida. Disse então para o aludido colecionador que já havia assinado um recibo de venda há muitos anos atrás e que não iria assinar outro. Desliguei o telefone com um sorriso juvenil e maroto no rosto.   

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

FESTA NO INTERIOR E AS ARTIMANHAS DE UM GAROTO ESPERTO


Quando garoto, estudei numa cidade do interior e havia em julho uma festa que durava uma semana. Nestas ocasiões, vinham muitos vendedores autônomos de fora e instalavam as suas barracas ao redor da praça central. Nestas barracas havia de tudo, desde comidas típicas a cachorros quentes, maçãs do amor, algodão doce, artesanatos, roupas e até as que eram chamadas barracas da sorte. Em algumas destas havia um coelho preso em uma caixa e depois solto pelo barraqueiro, que premiava aquele que havia escolhido o local onde o coelho fosse entrar; outras eram de tentar encaixar argolas em garrafas, que ficavam em cima de uma mesa. Como era criança, além de ser proibido participar de alguns sorteios e por ter pouco dinheiro, me contentava em ir nas barracas em que você comprava números escritos a caneta, dobrados em um pequeno papel que estavam dentro de um saco de pano. Era pagar, meter a mão no saco e tirar um papel para ver o que você  ganhou. O prêmio era o correspondente ao número que estava escrito no papel e ficava exposto em prateleiras na aludida barraca. Assim, por várias vezes, imaginando tirar um daqueles bons prêmios expostos nas prateleiras, fui a estas barracas e nada. Só conseguia tirar grampos de cabelo, caixas de fósforo, pentes vagabundos, prêmios que valiam aproximadamente um décimo do valor que havia pago para tentar a sorte. Certa feita, quando tinha aproximadamente uns treze anos, fui a uma destas barracas e comprei o direito de enfiar a mão no saco para tentar ver o que seria o prêmio. Como sempre, me parece que foi um pente pequeno chamado "flamengo". Só que, após isto,  fui para casa levando não só aquele "ótimo prêmio", como também o papelzinho com o número escrito a caneta. Vi que era um papel almaço com linhas azuis, cortado a tesoura em quadrados pequenos. Naquela época,  meu tio possuía um armarinho que tinha papel idêntico, bem como a caneta usada para grafar o número, para ficar igual o do papel comprado. Assim, voltei à barraca e para não gerar qualquer desconfiança adquiri um novo direito de tentar a sorte, que na verdade não existia, mas passei a observar os prêmios expostos e o respectivo número. Vi o melhor prêmio que poderia ganhar, caso tirasse o seu número. Voltei  para casa e já com os papéis almaço cortados na mesma disposição, comecei a procurar imitar o tipo de letra com o número do melhor prêmio. Depois de algumas tentativas, vi que havia conseguido fazer um semelhante. Assim à noite, quando o movimento era bem grande e acompanhado de quatro amigos, maiores e mais fortes, fui até a aludida barraca tentar ver se conseguia ganhar alguma coisa valiosa. Chegando lá, com aquele alvoroço todo, paguei o valor cobrado para o direito de tentar a sorte. Só que eu já tinha colocado entre os dedos de uma forma invisível, o papelzinho com o número desejado. Fiquei como que tentando apanhar um número no fundo do saco. Na verdade, o que eu estava fazendo era passar o número que estava entre meus dedos para a minha mão, sem pegar outro. Depois de alguns instantes, tirei o número e falei o número bem alto para todos ouvirem. As pessoas ali presentes, entre elas os meus amigos, quando viram que o número que eu gritara batera com o do best prêmio,  não acreditavam no que estava acontecendo, só ouvi dizerem: - Caramba você acertou em cheio! O barraqueiro ficou boquiaberto, não sabendo, a princípio, o que dizer, dado a surpresa de que foi tomado, pois com certeza aquele número não havia sido colocado no saco. Passados os primeros instantes de incerteza e vendo o barraqueiro que não poderia dizer que aquele número não havia sido colocado, senão a multidão que comemorava comigo poderia até linchá-lo, com muita raiva ele começou a gritar: - Saiu, saiu o grande prêmio, saiu!!! - Olha o felizardo ganhador, apontando para mim e já me entregando o cobiçado prêmio. Ao fazê-lo vi no seu olhar aquele ódio mortal,  cheio de pura raiva, como a dizer, você me paga seu moleque espertinho, mas se conteve. Fui para casa imediatamente com o grande prêmio e só voltei de novo a praça quando a festa já havia acabado e os barraqueiros ido embora. Naquela época pensei: pra esperto, esperto e meio. Hoje não faria mais isto, nem me aproximaria das barracas ou outros locais que lhe oferecem a oportunidade de tentar a sorte que não acredito... Foram coisas de criança, sem a devida instrução, mas fazer o que agora, apenas lembrar as minhas peripécias de moleque!!!         

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

AS CURIOSAS E O SAPATO FURADO


Com o intuito de estudar, na minha infância fui morar com uma tia e a avó materna em Carmo, uma cidade do Estado do Rio, que faz fronteira com o Estado de Minas Gerais. Isto porque, meus pais eram pobres, não tinham condições de pagar um colégio particular e naquela época havia poucas escolas públicas na antiga Capital e era bem difícil conseguir alguma vaga. Assim, cheguei em Carmo e procurei me adaptar ao modo de vida do interior, onde não havia  modismo e os mais velhos é que ditavam o que você deveria usar e não como é hoje, em que os nossos filhos já bem cedo fazem as suas escolhas e só querem usar roupas e tênis de marca. Por exemplo, naquela época, tênis só havia os sem marca, que só eram usados em desfiles escolares. No mais, eram sapatos tipo "boot" que varavam anos, tendo em vista que se trocava a sua sola inteira. Falando em sola, a usada não era a que se usa hoje, mas feita de borracha de pneus. Então, nós garotos, quando nos reuníamos,  ficávamos virando a sola  para mostrar qual era a marca do pneu usada pelo sapateiro. Uns diziam com orgulho: - O meu é Firestone. Outros alegavam: - Mas o meu é Goodyear ou Pirelli e saíamos procurando fazer derrapagens em alguma calçada lisa, procurando demonstrar a superioridade de um sobre o outro. Ao voltar para a casa de meus pais no Rio, levei aquela mania meio mineira de aproveitar ao máximo a coisa comprada, principalmente os sapatos. Então, certa vez, eu estava com um par de sapatos que no pé direito era só furos, sujando a meia de terra e me obrigando a sempre estar olhando para onde pisava, a fim de evitar pisar numa guimba de cigarro ainda aceso e queimar o pé. Vi  então, que teria de comprar outro par de sapatos porque aquele estava um bagaço. Estando no centro, fui até a Rua da Carioca e lá, depois de algumas escolhas, comprei o sapato e já fiquei usando o novo, mas falei para o vendedor que iria levar os sapatos velhos para o conserto. O vendedor franziu a testa como a dizer, este aí não serve para mais nada, mas me atendeu, depois de colocar os sapatos velhos na caixa do novo, embrulhou-a com um papel reluzente e colocou-a numa sacola de plástico, que tinha o nome e endereço da sapataria.  Assim, saí da loja e fui até a Avenida Rio Branco, a fim de pegar um ônibus para Copacabana. O ônibus estava quase vazio, praticamente um passageiro em  cada banco. Sentei num banco bem atrás e fiquei na janela para observar a paisagem do Aterro do Flamengo, que ainda não havia sofrido a transformação do magistral paisagista Burle Max. Passado algum tempo, comecei a raciocinar sobre o par de sapatos velhos que estava levando e vi que eles estavam muito ruins. Assim, comecei a pensar em como me desfazer dos mesmos. Quando o passageiro que estava no banco bem a frente se levantou para descer, indo para a frente do veículo, aproveitei e fui para o lugar vago, deixando no banco de trás a sacola com os sapatos velhos. Num ponto antes, já haviam entrado uma senhora idosa e uma jovem, aparentemente sua neta, e foram direto para o banco onde eu estava anteriormente sentado. Vendo a sacola e o cidadão que já iria descer, gritaram: - Senhor, senhor, você esqueceu a sua sacola! Ele, virando-se para trás e observando a sacola disse: - Não é minha. Soltando logo a seguir. Eu, que estava no banco logo a frente da senhora e sua neta, fiquei antenado e comecei a ouvir os seus comentários sobre a sacola deixada. A senhora idosa falou para a jovem: - Sacola bonita! O que será que tem dentro?  Em ato contínuo sacudiu a sacola e concluiu: - É sapato. A neta, muito curiosa, falou para a avó: - Vamos ver se é  de mulher, quem sabe não é um lindo e caro par de sapatos? - Pelo embrulho, o que está dentro deve ser sim. Então começaram a tirar da sacola aquele bonito embrulho que envolvia a caixa... E eu só ouvindo tudo no banco da frente. Quando descerraram o embrulho, abriram a caixa e viram aquele trapo de sapatos todo furado, disseram: - Que coisa horrorosa e fedida, parece coisa de mendigo... Arghhhhhhhhh!!! Eu no banco logo a frente não conseguia controlar o meu riso, vendo o desconforto daquelas duas, tentando se livrar da sacola. Pouco tempo depois soltei na Rua Barata Ribeiro, mas ainda ouvi a velha dizer para a neta: - Temos de passar numa farmácia para comprarmos álcool e desinfetar nossas mãos. Pensei: CURIOSIDADE MATA,  só  de  cheirar!

domingo, 30 de janeiro de 2011

A VIDA É MINHA E FAÇO DELA O QUE BEM ENTENDER

Por diversas vezes, já ouvimos esta frase dita por alguém, querendo dizer que tem total liberdade e controle sobre sua vida e que dispõe dela a seu bel prazer ou como quer. É uma pessoa que acha que não tem de prestar contas a ninguém pelos seus atos, seja a pais, marido ou esposa, a sociedade ou a Deus. Pra ela não existem regras. O seu único código de regras é um código de moral interno, que lhe aponta se isto é aceitável e permitido ou não. É um código criado por ela própria, com base na sua formação familiar e nas suas observações do comportamento humano. Por ser um código com base nestes elementos, ele não é rígido, está sempre sujeito a mutação, adequando-se a nova maneira de pensar das pessoas, sendo portanto, bem flexível, ou seja, o que ela acha imoral hoje provavelmente não o será amanhã. Isto porque os padrões morais do mundo estão baixando rapidamente. O que era só visto nas sessões da madrugada ou nos cines privê, agora é transmitido no horário nobre, com a presença de crianças na sala. O código interno de moral que todos temos, que é a nossa consciência, não é um guia seguro. Ela pode ser corrompida e se desviar, assim como um barco deixado sem uma corda de fixação, mesmo numa lagoa de águas aparentemente paradas, aos poucos a ação de ventos e alguma correnteza abaixo da superfície o vai levando para outra margem sem se perceber. Da mesma forma, precisamos de uma fixação, algo que detenha o nosso impulso natural de ficarmos à deriva, achando que com isto somos mais livres. Assim, uma pessoa só poderá dizer corretamente que a vida é dele e faz dela o que bem entende, se fosse auto-criativo, ou seja, o criador de sua própria vida. Teria de ser não só o criador de sua vida, como o sustentador dela. Porque não adianta apenas criar a vida, é preciso depois do primeiro ato, mantê-la. Vamos imaginar que você pudesse se auto-criar e depois disto estivesse em outro planeta como, por exemplo, Marte. Quanto tempo você acha que ficaria vivo? Poucos instantes. Então é necessário não só criar, como sustentar a vida. Dependemos do ar, da exata distância do sol, da noite, do dia, dos animais, das árvores frutíferas e de tudo que existe no nosso planeta Terra para continuarmos vivos. Fica claro que somos totalmente dependentes do que já foi criado. Bom, se não podemos criar ou sustentar a nossa própria vida, não podemos dizer que "a vida é minha e faço dela o que bem entender". Somos seres criados e sustentados por Alguém muito superior a nós e, portanto, dependentes deste. Não possuímos a alardeada liberdade total, isto não existe para quem é criado. Se somos dependentes do Originador e Sustentador da vida, temos que prestar contas dos nossos atos a Ele. Porque ir contra a vontade Dele é uma insensatez ou uma enorme burrice. Devemos, como seres criados, ver qual é a sua orientação para a nossa vida e o que ele espera que nós façamos da vida que ele nos deu. O princípio da sabedoria é o temor de Deus. Aquele que não teme a Deus ou até acha que Ele não existe é o mais tolo dos homens. Para aqueles que temem a Deus, Este é uma pessoa real e tudo em sua vida gira em torno de fazer a sua vontade. Algumas pessoas dizem amar a Deus, mas só se lembram Dele, quando estão em dificuldade ou precisam de algo, aí até fazem uma oração fervorosa pedindo ajuda ou proteção a Ele. Passado o momento do aperto ou conseguida a coisa solicitada, nem pensam em Deus, principalmente no lazer ou na farra, aí  Deus é uma coisa abstrata, tão longe lá nos céus, que nem tem tempo para olhar ou criticar o seu modo de vida, por mais que se desrespeite os seus mandamentos. Por exemplo, Ele diz categoricamente em sua Palavra que sexo só é permitido para as pessoas casadas. Mas para estas pessoas o seu código de moral interno basicamente corrompido pelos padrões atuais, diz que não e você acha que mesmo dizendo que ama a Deus pode impunemente violar tal ordem, sem nenhuma consequência. a AIDS, SÍFILIS, HPV, HERPES e outras doenças sexualmente transmitidas, a gravidez indesejada, além das doenças emocionais e dores na consciência estão aí para mostrar a gravidade de tal conduta, que viola uma ordem explícita, não um princípio. Os pseudo espertos dizem que tudo pode, desde que você esteja devidamente prevenido contra tais doenças, mas será que o preservativo irá preveni-lo contra o julgamento adverso de Deus? Não é porque não houve gravidez, que não houve crime.  Não se iluda, mesmo se livrando de algumas doenças, você sofrerá a maior delas, que é a pena de morte. Portanto á vida é um dom que Deus lhe deu e não que você criou. Valorize este presente e o Dador dele. Procure viver de acordo com as normas estabelecidas pelo Originador e Sustentador da vida em sua Palavra e não como os tolos que ainda se dizem espertos por levarem a vida que levam, sem levar em conta o objetivo de Deus para ela, mas que brevemente  pagarão um preço bem caro  por acharem que podem fazer da sua vida o que bem entendem. Os que pensam assim não podem nem garantir a continuação de suas vidas por apenas alguns segundos a mais. Portanto, viva de maneira correta, como o que o Criador espera que você faça e por certo a terá  para sempre, aqui mesmo na Terra e não como os tolos que logo desaparecerão do cenário, como coisas indesejáveis e repugnantes.

sábado, 29 de janeiro de 2011

UM BUROCRATA NA CONTRA-MÃO

Por um certo tempo de minha vida trabalhei num banco. Mas certo dia, um funcionário do banco onde eu trabalhava, o Orlado foi demitido e como possuía parentes na Justiça do Rio, arranjaram pra ele ir trabalhar num cartório de protestos de títulos, lá na Praça. XV, que ficava perto das barcas que fazem o trajeto Rio-Niterói.  Depois disto ele arrumou serviço no mesmo cartório, para mais dois colegas de banco, o Arilton e eu. Assim desci de paraquedas pra trabalhar na Justiça, que na ocasião era quase toda particular. Depois de três anos, fiz concurso público e passei mas não havia vagas no cartório onde trabalhava, mesmo assim preferi ficar lá, onde tinha amizade com o titular do cartório e os demais funcionários. O dono do cartório ficava com 50% de toda a renda e o restante era dividido entre todos os funcionários, cabendo logicamente um percentual maior para os mais antigos. O meu serviço consistia em bater instrumentos de protestos numa máquina de datilografia. Ganhava por produção e depois mais à frente também do rateio da renda do cartório, perfazendo um bom salário em termos de Brasil. Trabalhar em tal cartório, naquela época, era mesmo uma grande festa, pois não havia nem há crise em cartório de protesto, isto porque nas crises, mais pessoas são protestadas e, portanto, o volume de movimento é ainda maior e, por conseguinte, mais dinheiro rola. O salário era tão bom que alguns funcionários cometiam algum excesso no esbanjar, como aconteceu certa vez com um já meio doidão, funcionário do sétimo distribuidor num baile no Clube Federal, lá no Leblon, que puxando do bolso uma maçaroca de notas, jogou-a para o alto no meio do salão, o que foi causa de uma grande confusão. Além do bom salário, havia casos e personagens pitorescos. Numa ocasião, chegou uma pessoa ao cartório e perguntou, quem era o responsável pelas certidões e foi lhe dito que era o Luiz. Dirigindo-se ao setor, ele disse ao Luiz que precisava de uma certidão negativa com urgência e indagou o que além das custas teria que pagar. Luiz respondeu: - Deixa uma cerveja e tudo bem. Enquanto Luiz batia a certidão solicitada, a pessoa deu uma saída e foi até um bar, onde adquiriu duas latas de cerveja e quando Luiz lhe entregou a certidão, a pessoa lhe entregou as latinhas. Ele não pôde reclamar nada, pediu e recebeu até em dobro. Em outra ocasião, um cidadão disse ao atendente no balcão que queria falar com o Bel. O atendente disse que no cartório não havia nenhum Bel e o cidadão disse:  - Como não tem nenhum Bel? Ato contínuo, mostrou um formulário do cartório onde estava escrito em cima: Oficial Bel.Pedro Luiz. Ele confundira a abreviação de bacharel com o nome de alguém. Coisas de um país de pouca cultura. Foi meu colega de trabalho e de alguns passeios neste período, o Antonio De Bonis, que pediu demissão do cartório um pouco antes de mim, para começar uma carreira artística vitoriosa, primeiramente como ator, vindo depois a se tornar o consagrado diretor de musicais e peças teatrais. Sua irmã Carmela até pouco tempo atrás trabalhava no cartório, mas sem as benesses daqueles anos em que o Oficial dividia parte dos lucros com os funcionários. Mesmo com toda vantagem financeira que com certeza tal serviço poderia me dar, resolvi depois de algum tempo, após me formar, também deixar o cartório. O Oficial Dr. Pedro, diga-se de passagem um verdadeiro bom burguês, que tinha consideração por todos, não entendeu quando lhe comuniquei o fato, chegando mesmo a me propor uma parcela maior da fatia do bolo para continuar trabalhando com ele, mas recusei. Fiz o caminho inverso de muitos hoje, que depois de se formarem se sujeitam a um trabalho burocrata, ONDE OS SONHOS SÃO SUFOCADOS EM TROCA DA ESTABILIDADE DE UM EMPREGO PÚBLICO e um punhado de dinheiro. Nesta minha vida, com raríssimas exceções, vi um funcionário público satisfeito, mesmo aqueles que ganham muito bem. A satisfação só acontece em dois momentos: quando são aprovados em concurso e tomam posse no cargo e depois quando se aposentam. No resto é só reclamação, mal atendimento ao público e luta por aumento de salário. Ficam contando os dias para se aposentarem e aí então viverem. Embora a minha atitude possa ser incompreendida pelas dificuldades que passei e ainda passo, mas uma coisa é certa: não me arrependo pelo bons dias que tenho vivido como um ex-burocrata, sem ter de prestar contas a ninguém e trabalhando naquilo que gosto. Como já dizia Raulzito: "NÃO QUERO FICAR SENTADO NO TRONO DO MEU APARTAMENTO, COM A BOCA ESCANCARADA, CHEIA DE DENTES, ESPERANDO A MORTE CHEGAR".  Prefiro o inusitado, o imprevisto pra me sentir vivo.  

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

O BANCÁRIO INSUBORDINADO





Corria o ano de 1965, muita coisa havia mudado no país desde a deposição de Jango, quando ser bancário era uma das melhores profissões do proletariado. Ser bancário anteriormente era ser beneficiado por um Sindicato atuante que conseguira um aumento de mais de 100% no ano, poder fazer uso de um dos mais bem aparelhados hospitais do Rio, que ficava na Lagoa Rodrigo de Freitas e ainda ter como órgão previdenciário o IAPB, instituto bem superior ao das demais categorias, como por exemplo o IAPI ou IAPC. Assim, quando fiz as provas para ser admitido no Banco Cidade do Rio de Janeiro pensava nas mordomias inerentes a profissão daquele ano de vacas gordas. Aprovado, fui enviado para trabalhar na Matriz do banco, que ficava na Candelária, sendo designado para trabalhar na contabilidade do setor de câmbio, que ficava no segundo andar do prédio. Ao chegar, fui bem recebido por todos, fazendo amizade de cara com o operador da máquina de mecanografia, o Arilton, mais conhecido como "Gaúcho", por ser originário lá dos Pampas. Depois das informações preliminares sobre todo o setor, Jorge Omena me designou para trabalhar operando a aludida máquina, uma enorme Burroughs, fazendo os lançamentos de débito e crédito das transações em moeda estrangeira do dia nas fichas dos clientes. Um outro funcionário do setor, o Orlando, ao me recepcionar foi logo dizendo: - O salário do banco é pouco, em compensação ninguém é mandado embora. Não muito tempo depois desta conversa, Orlando foi o primeiro de uma longa lista de demitidos. A razão disto é que o Banco Cidade do Rio de Janeiro foi encampado por um outro mais forte, o Econômico da Bahia. Com a vinda do pessoal do Econômico, houve uma mudança radical no setor onde eu trabalhava. O novo chefe, Alfredo Cravo, me perguntou se eu poderia trabalhar à noite, fazendo o fechamento do balancete diário de moedas estrangeiras. Ante a minha aquiescência, comecei a trabalhar a partir das 18:30 horas, sem horário definido para sair, desde que concluísse o meu trabalho. A princípio era por volta das 22:00hrs, mas rapidamente passei a sair as 20:30hrs. Arilton, o "Gaúcho", também passou a trabalhar à noite e saíamos sempre juntos por volta das 20:30h, o que nos dava tempo de ir a shows, cinema ou jogos no Maracanã. Depois ainda veio um terceiro, o Antonio de Pádua, e agora os três saíamos pouco depois das 8:00 da noite. A coisa só pegava quando dava uma diferença para eu fechar o balancete e havia por exemplo um show com ingresso já comprado, aí era um pega pra capar, com todos os três fazendo de tudo para achar a diferença. Muitas vezes saíamos do banco antes que o pessoal que entrara ao meio dia. Me lembro de certa vez, que antes das 20:30hrs, já estávamos fora do banco sentados numa mesa de um bar, que ficava entre a Av. Rio Branco e a Visconde de Inhaúma, quando vimos o Ângelo, que era o chefe administrativo de todo o setor de câmbio ao qual nós pertencíamos, vindo de seu trabalho na Imprensa Nacional, localizada na Pça. Mauá. Quando ele chegou perto de nós o repreendemos veementemente, alegando que era por isso que o país não progredia, devido a moleza de funcionários que trabalhavam tão pouco. Angelo, pego de surpresa, se desculpou dizendo que aquele fora um dia excepcional. No outro dia quando chegamos para trabalhar, ele nos chamou até a sua sala e foi logo dizendo: - Vocês são muito abusados de me chamarem a atenção ontem à noite. - Eu como chefe do setor é que deveria chamar a atenção de vocês por já estarem aquela hora fora do banco. Nós respondemos em coro: - Antes de você nos jantar com bronca, nós preferimos te almoçar. Ao final tudo terminou bem, sem ressentimentos, pois ele sabia que não dependíamos do banco para sobreviver, por isto éramos assim insubordinados.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

ADEUS AS ILUSÕES



Houve uma época recente de minha vida que achei que poderia refazê-la, apesar de todas as limitações que me foram impostas, seja pelo ônus de uma pensão alimentícia alta, seja por cuidar integralmente dos filhos que ficaram debaixo da minha guarda. Tenho procurado fazer o melhor que posso para suprir as necessidades deles, tanto em sentido físico como no emocional . Por conta  disto, pouco sobrou para minha vida pessoal. Mesmo assim, de  tempos em tempos, com o que me restava, fiz investimentos em amizades que acreditava que um dia poderia produzir frutos fora da estação, que fossem frutos temporãos. Até agora não surtiu qualquer efeito, é como regar uma planta artificial, não brota nenhum raminho. Seria como esperar colher cachos de uva numa terra árida do deserto. Por isto, estou jogando a toalha e finalizando o jogo. Decidi  não mais criar qualquer expectativa, pois a expectativa não concretizada é podridão dos ossos.  Não tenho mais esperança alguma neste aspecto, me dou por vencido. Compreendi que o que se leva em conta é o embrulho e  não o conteúdo. O conteúdo pode ter mil defeitos, mas se a embalagem for bonita, tudo é desculpável. A maioria das mulheres preferem os canalhas bonitos do que os íntegros feios, é o famoso "amor bandido". Os meus objetivos agora estão direcionados para outras áreas, que não tem a ver com o coração e sentimentos. Estou dando ADEUS AS ILUSÕES, deixo que estas coisas de amor fiquem para os mais jovens, que ainda tem muito combustível e tempo para consumir. Pra mim não dá mais. É decepção em cima de decepção. Não é ser pessimista, que de fato nunca fui, mas É SER REALISTA, pois isto tem sido o padrão da minha vida desde que eu me entendo por gente. Nunca houve um período em que me deram algum valor como os demais, por conta do embrulho de pouca estética. Sirvo apenas para ser amigo, até mesmo um bom amigo, mas nada além do que isto. Nunca ninguém olhou para mim como alguém que poderia ser um parceiro, apenas e tão somente o amigo disposto a fazer qualquer sacrifício em seu  favor. O único fio tênue de esperança que me resta se resume a poder ultrapassar a grande tribulação com vida, aí sim terei o tempo e as transformações necessárias para tornar-me uma pessoa atraente, valorizada, não a rejeitada que hoje sou, por conta de uma aparência que não possui o padrão de beleza desejada e almejada, pelas revistas e outros tabloides cultuadores do físico. Mesmo quando tal  pessoa abre a boca e só saia porcaria, conversa frívola  e nada que se aproveite, ainda assim ela leva vantagem, por conta das pessoas valorizarem muito o externo em detrimento do interno. Como disse certo erudito: a burrice campeia entre as pessoas tidas como bonitas. Só existe um detalhe que muitos esquecem: A beleza rapidamente passa é fugaz e o que vai sobrar depois se a pessoa não possui outras qualidades além da estética? Nada, não vai haver qualquer diálogo, será grosseria em cima de grosseria. Então no futuro que em breve irá começar, a beleza externa será o reflexo da interna. Só me resta agora torcer para que possa passar rápido este tempo do fim e que consiga me manter firme na minha posição de não transigir, apesar de todas as dificuldades que não só eu, mas todos nós enfrentamos, impostas pelo inimigo da vida e possa receber no futuro tal prêmio, para aí sim conseguir constituir de novo uma família, acrescida dos membros remanescentes da atual  e que são a minha razão de viver.