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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A FUGA EM ZIG ZAG



Fiz faculdade de direito durante o regime militar mas precisamente quando foi instituído o temível AI- 5 que reprimiu de forma violenta toda e qualquer manifestação contrária ao regime de exceção. Foram os chamados "anos de chumbo" em que muitos foram mortos, outros tantos torturados, muitos tiveram os seus direitos políticos caçados e foram para outros países como exilados ou estão entre os muitos desaparecidos sem que os seus familiares possam saber de seu paradeiro. Ser estudante universitário naquela época era sinônimo de subversivo ou comunista. Havia entre os colegas, alunos que na verdade estavam lá plantados como espiões para delatar aos órgãos de repressão os que eram agitadores. Para enfrentar a cavalaria que por diversas vezes invadiu a faculdade, muitos de nós além de livros e apostilas levávamos rolhas de cortiças e bolas de gude. Não havia cavalo que ficasse em pé com tais objetos derramados no chão. Mesmo não tendo nenhuma ideologia comunista, fui a diversas passeatas ao lado de muitos artistas famosos. Algumas vezes em tais passeatas cheguei a sofrer agressões de policiais. Mas me lembro de uma passeata que ocorreu e da qual nem estava participando. Naquela ocasião trabalhava num cartório de protestos na Praça XV no centro do Rio. Na hora do lanche eu e mais dois funcionários do cartório, o Luiz e o Itamar, resolvemos faze-lo no "Bob's" que havia na Rua do Rosário. Atravessamos a 1º de Março e quando estávamos na citada rua do Bob's na altura da Rua do Carmo, ouvimos o eclodir de bombas e tiros vindo da Avenida Rio Branco onde havia uma passeata. Como muitos fugiram descendo a Rua do Rosário no sentido da 1º de Março, eu que no momento estava ao lado de um colega de faculdade, que encontrara no caminho, o Flavio, que possuía uma cara de subversivo por seu cabelo grande e uma barbicha a la "Che Guevara" também passamos a correr, fugindo dos policiais armados que davam tiros de verdade e não de festim ou de borracha. De repente me vejo agarrado por um policial civil, que passa a me desferir várias bolachadas de cassetete. Depois de alguns segundos consigo me desvencilhar do aludido policial. Começo então a correr no sentido contrário ao da passeata, ou seja para a 1º de Março. Como eu já havia visto em outras ocasiões policiais atirando para valer em estudantes que se soltaram de suas mãos, alguns serem atingidos e outros até mortos, corro, não de forma natural em linha reta, mas em ZIG e ZAG. Embora não visse o policial sacar da arma, depois de me soltar, pensei comigo, se ele o fizer,  para me acertar terá mexer muito na pontaria, o que tornaria difícil o acerto, pois eu seria um alvo móvel. Pode ser que se ele der um tiro no ZIG eu esteja no ZAG e não me acerte e assim fui pulando de um lado da rua ao outro. Tanto o Luiz como o Itamar meus colegas de cartório quando me viram seguro e apanhando, pararam de correr e ficaram só observando. Eles me contaram que viram o policial, após eu me soltar, puxar da arma e fazer pontaria contra mim mas a minha forma de corrida frustrou o seu intento. Chegamos ao cartório, todos brancos como vela, mas vivos, principalmente eu por conta da minha maneira excêntrica de correr. Coisas do passado que marcaram a minha juventude e toda uma geração, que gerou protestos, livros, filmes, mini-séries, pedidos de reabertura do caso no Congresso para julgamento dos culpados e manifestação da OAB para apurarem o paradeiro dos inúmeros desaparecidos. Sim as vezes é preciso se adaptar as necessidades do momento e naquele momento a corrida que não ganharia qualquer medalha em Jogos Olímpicos mas me premiou com um troféu maior que é a vida, foi a do ZIG e ZAG!!!

A FALHA DE CARÁTER

De vez em quando ouvimos a notícia de que alguém agiu de uma maneira anti-ética ou mais precisamente de uma forma absurda no seu relacionamento humano, mostrando total falta de caráter. As pessoas envolvidas, principalmente as que amam, ficam chocadas. Não conseguem entender como pode alguém agir assim se lhe deram tudo de bom, todo o seu amor. Ficam vasculhando as suas atitudes ou ações passadas na ânsia de encontrar erros que possam justificar o comportamento do outro. Embora reconheçam que são humanos e portanto sujeitos a erros, não encontram nada de grave que venha a ser motivo de uma ação tão deletéria e negativa. Como diria certo provérbio popular "nem Freud explica". O escritor deste blog que não é nenhum psicólogo ou coisa parecida mas apenas um atento observador do comportamento humano, tem opiniões e conclusões sobre o assunto, não que isto seja uma coisa definitiva e verdadeira mas é o que eu pude observar e por fim concluir. Uma coisa que tenho observado em todos os que demonstram falta de caráter em sua personalidade é um padrão de comportamento mais ou menos idêntico: Primeiro deles:  Se acham ou se fazem de vítimas. Pra este tipo de pessoas todos são "bandidos" e só ela é o "mocinho" da estória. Acham que desde que nasceram sofreram discriminação e foram preteridos. Estas pessoas não só acham que são sempre as vitimas como se comportam como vítimas. Ficam deprimidas, de baixo astral, reclamam de tudo e de todos, espalham a infelicidade ao seu redor. Quem não as conhece  verdadeiramente acham que são boazinhas mas é só casca. Elas tem o poder de torcer o que foi dito em seu benefício. São dissimuladas e pérfidas, engendrando coisas torpes para justificarem  a sua ação. Por que no fundo querem como que "roubar" sua vida. Segundo: Não admitem seus erros. Jamais acham que errou, o erro pertence aos outros. Em pouquíssimas vezes pedem perdão por algum ato chocante de sua parte, mas tal pedido, quando o fazem não é sincero já que no fundo acham mesmo que o erro não é seu. Passados poucos dias de tal pedido, fazem ou cometem as mesmas barbaridades e aí fica aquele círculo interminável de atos errados e pedidos falsos. Querem sempre que a outra pessoa mude o seu modo de agir, pensar e de viver enquanto ela não está disposta a fazer qualquer mudança por menor que seja em prol do bem comum. Terceiro:  Não possuem amigos. Todos os que o cercam não são confiáveis por isto não prospera nenhuma amizade. Em razão disto surge o Quarto fator: Não confiam em ninguém. Todos são traidores. Chegam a sonhar com a traição de que se acham vítimas. Prova disto é que monitorizam todos os atos das outras pessoas. Se pudesse teria uma escuta e uma câmera para captar os pensamentos alheios e ver quais são as suas intenções para evitar a suposta "traição" de que acha será vítima no futuro. Possuem um ciúme doentio Quinto: São falsos moralistas. Pregam uma coisa e fazem outras. Exigem de outra parte uma atitude como se fosse de uma beata enquanto ele/ela mesmo é um libertino/a. Assim que podem dão vazão a seus atos imorais. Sexto:  São totalmente egoístas. Só os seus problemas é que são importantes. A vida gira em torno de seus alvos. Ele é o artista principal, os outros que o cercam são meros coadjuvantes. Só olham o seu próprio umbigo. Sétimo: não respeitam a outra parte, a sua vontade é que prevalece. Dizem e fazem coisas que fere os outros sem nenhuma dor de consciência. Oitavo: Estão sempre de mau humor, a vida é sempre vista pelo seu lado negativo. Tem raros momentos de alegria e descontração. Nona: São mentirosos compulsivos, fingem e mentem descaradamente para justificarem os seus atos e ações. Décima e última: São pessoas infelizes e acham que todos também devem compartilhar de sua infelicidade. Não sabem ser felizes. Quando tudo parece estar bem criam ou inventam qualquer coisa para começar uma briga a fim tornar a relação infeliz. Têm prazer na infelicidade que se pudesse seria a regra de sua vida e não a exceção. Ao ver estes padrões de comportamento de todos os que tem falhas graves de carácter, espera o editor deste blog, poder ajudar os que sofrem em tal relacionamento, para em reconhecendo isto, verem que nada que pudesse ter feito mudaria a situação, pois se trata de pessoas doentes. Em conclusão do assunto: Nem mesmo o maior amor do mundo teria o poder de reverter esta falha, por isto anime-se: O ERRO NÃO É SEU,        

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A "FURIOSA" ATACA PELA MANHÃ

Morei por conta de estudar, um certo tempo numa cidade bem pequena em Carmo-RJ. A vida no interior era limitada e eu acho que ainda é, com poucas opções de diversão, por conta disto, você tinha e tem de arranjar algo para fazer, para preencher o tempo que não andava e não anda, ainda mais quando se é jovem, ai é que ele se arrasta. Por isto eu e mais uns amigos, fomos até a sociedade musical local, para apreendermos a tocar algum instrumento, que no meu caso o maestro optou por um clarinete de treze chaves. Depois das aulas teóricas de conhecimento e solfejo musical, passei para a aula prática. O instrumento que me foi cedido era novo e por conseguinte bem seco, não possuindo a sonoridade encontrada em outros instrumentos já amaciados. Aconselhado, muitas vezes, coloquei cachaça no clarinete para ele ficar mais macio, não sei se esta dica possuía algum valor real ou era simples boato de algum músico que gostava de beber. Depois de algum tempo de aprendizado, quando consegui ter uma razoável embocadura, recebi a incumbência de ser o quinto clarinetista da banda e passei a tocar não só na localidade, como em várias cidades fluminenses e da zona da mata mineira. Viajávamos de madrugada para as cidades e antes das 6:00 horas, lá estávamos perfilados, marchando de baixo de um foguetório danado, atacando num dobrado decorado, acordando todas pessoas pelas ruas onde passávamos, assim como acontece com todas as bandas que fazem alvorada. Em muitas cidades tocávamos na praça principal,onde havia um coreto. Só que em algumas tal coreto não possuía cobertura e ficávamos tocando debaixo de um sol causticante, que aumentava ainda mais o calor dentro daquela farda cinza chumbo, com um quepe do mesmo tecido, tipo comandante. Era o inferno de Dantes. Alegria mesmo era quando o maestro anunciava a pausa para almoçarmos. O almoço era sempre muito bom, numa mesa farta, normalmente num clube ou ginásio, com um período de folga depois, porque ninguém é de ferro. Quando na cidade havia um rio próximo, quase todos nós íamos para lá para se refrescar, deixando as nossas fardas penduradas nas árvores a beira do rio. O difícil nesses dias quentes era reagrupar o pessoal para enfrentarmos o sol da tarde. Era um tal de se esconder debaixo dos bambuzais, porque ninguém queria sair da água. Muitas das vezes a banda começava o programa da tarde faltando vários membros. A noite de cima do coreto começávamos a paquerar as garotas que estavam próximas, fazendo muitas vezes alguns destonar, sob o olhar e ouvido atento do maestro, que tudo percebia. O bom de tudo isto era que ao final, além do passeio, sobrava algum trocado, mesmo que fosse pouca coisa para mim o quinto clarinetista da sociedade musical. Um fato curioso aconteceu numa localidade me parece que Volta Grande em Minas Gerais. Debaixo de muitos foguetes, começamos a desfilar em passos rápidos pelo centro da cidade, fazendo a alvorada, acordando a todos, tocando um dobrado bem decorado. Nele havia uma parte em que o primeiro clarinetista fazia um solo em alguns pedaços. Me lembro então, que num determinado momento o maestro olhou para o primeiro clarinetista como a dizer, a banda toda está em suas mãos nesta hora. Ele então ao invés de tocar, gritou para o maestro, com aquela voz gozada, como se tivesse um ovo na boca, própria de alguém sem dentes: - Agora não posso..., minha dentadura caiu lá atrás... e alguém a chutou. Foi uma debandada e riso geral, com todos depois procurando a dentadura do primeiro clarinetista, que foi encontrada no meio de uma moita de capim. Ele apenas soprou os matos que estavam grudados nela e em seguida a colocou na boca. Depois de re-alinhar o grupo, o maestro levantou a sua vareta: - E É UM,... E É DOIS....E É JÁ, dá-lhe "furiosa" - pamparaam...paraampampampam, parampampam...pam...pam..pam...pam..pam...pam...pam!!!     

O CASAMENTO IMPOSSÍVEL E A PROTEÇÃO DIVINA

Algumas vezes na minha profissão, fui procurado para resolver casos inusitados que eu nem sei se tem algum similar. Um desses foi quando uma senhora me procurou para resolver o problema de pensão do antigo INPS deixada por seu filho, que falecera alguns meses antes. Ele possuía três filhas da sua primeira união, só que se separou e passou a conviver com uma outra mulher perto da data de seu falecimento. A mulher com quem ele fora morar no final de sua vida, conseguira casar-se com ele. É conhecida a possibilidade jurídica de que alguém no seu leito de morte, não querendo que sua companheira fique desamparada, demonstre a sua vontade de casar-se com ela, porém o fazendo na presença de testemunhas, que irão depois, em um processo, dar validade ao aludido casamento chamado de "in extremis". Só que o casamento feito não obedecera as exigências legais e, por incrível que pareça, o filho de minha cliente falecera em fevereiro e a esperta casou-se com ele em julho do mesmo ano. Ou seja, o indigitado casou-se, ou mais precisamente foi levado ao casamento, cinco meses depois de sua morte. Não sei se por conta disto houve a famosa "lua de mel".  Tal fato ou aberração jurídica se deu no Município de Caxias/RJ, onde muitas pessoas diziam naquela ocasião que "em Caxias tudo pode". Hoje eu sei que tal Município, um dos maiores e mais progressistas da baixada fluminense é governado por leis de um Judiciário atento, que jamais permitiria tal proceder de alguém assim em sua Comarca. Só sei que tal casamento foi anulado e a pensão foi revertida para as suas filhas, até que elas completassem a maioridade. Já havia passado algum tempo desde que solucionara o caso para minha cliente, quando antes das sete horas da manhã, ouço palmas em meu portão, numa casa no subúrbio do Rio. Minha ex-esposa, que estava grávida da minha segunda filha, fala aborrecida: - Quem será que vem tão cedo perturbar a gente? Será que não tem simancol?  Vou até a porta da frente e abro uma janelinha no meio desta para ver quem está batendo palmas no portão. Depois de ver, digo para minha ex-mulher: - É a dona Josina, aquela que eu resolvi o caso de pensão para as netas dela.  A minha ex fala: - Mas dona Josina tinha de vir tão cedo?  Não dei muita atenção a isto. Me vesti e fui até o portão para abri-lo e atender a dona Josina Alexandre. Ela se desculpou por ter vindo a minha casa tão cedo, dizendo: - Dr. Paulo, fiquei preocupada que o senhor saísse, por isto vim neste horário, me desculpe. Eu lhe disse em resposta: - Não tem nada não, dona Josina, o dia está tão quente e não dá para ficar na cama muito tempo. Mas o que a senhora manda?  Ela me disse: - Sabe aquele caso de pensão deixada por meu filho para as minhas netas? Os atrasados saíram agora. Eu lhe disse em resposta: - Fico contente com isto. Aí ela acrescentou: - Eu vim aqui para lhe pagar os seus honorários. Em adição eu disse que ela não estava me devendo nada, já que no início do processo ela havia me dado um dinheiro para as custas e sobrara o suficiente, que eu entendia ser o valor dos meus honorários. Ela disse: - Não, aquilo foi só para as suas despesas de ida a Caxias e custas, os honorários são outra coisa.  Eu não sabia o que cobrar a dona Josina, porque do meu ponto de vista ela não me devia nada. Mas ela insistia: - Quanto? Me diz quanto é os seus honorários, Dr. Paulo? Naquela manhã eu estava praticamente duro, só com o dinheiro para comprar as coisas do café. Teria também de pagar naquele dia o aluguel da casa, senão me sujeitaria ao acréscimo da multa, o que seria bem difícil para mim, já que a casa fora alugada na época de vacas gordas, quando ainda trabalhava no cartório e era um aluguel bem alto. Mas nada disto justificava eu cobrar algo se, do meu ponto de vista, ela nada me devia. Quando minha ex-esposa me viu relutando em receber os honorários e sabendo que eu estava duro e nenhuma perspectiva de alguma importância para pagar o aluguel, se esqueceu do mau humor de acordar cedo,  levantou rapidamente e foi falar com dona Josina, que ela já conhecia: - Oi dona Josina, tudo bem?  Ela lhe disse: - Tudo bem e o neném para quando é? Em resposta minha ex disse: - Para o mês que vem, é uma menina. Eu vou fazer um café para a senhora. E saiu para a cozinha. Eu não sabia mais como explicar para dona Josina que ela não me devia nada e ela insistindo: - Quanto é seus honorários?  Devido a sua insistência,  falei um valor aleatório, só para acabar com aquele impasse. Quando eu disse o valor, dona Josina me disse de pronto: - O quê? Isto é muito pouco. Em ato contínuo, puxou de sua bolsa um bom dinheiro e me deu o dobro do valor que eu havia falado e chamou minha ex-esposa, que estava na cozinha preparando um cafezinho. Quando ela chegou com uma xícara, dona Josina lhe disse com um dinheiro na mão: - Isto é para a menina que vai nascer. O total dado por dona Josina Alexandre foi a quantia exata para eu pagar o aluguel da casa. Só posso atribuir isto a uma  proteção divina, o fato de alguém vir a minha casa  tão cedo  pagar algo que eu não esperava e nem me devia e no valor exato que eu precisava. Sou muito grato ao meu Deus Jeová, por ter sempre cuidado de mim nas minhas tribulações, muito mais do que mereço.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

HISTÓRIAS DO MG E EU


Foram muitas as aventuras que eu e aquele conversível com volante do lado contrário vivenciamos na década de 70. Algumas já foram contadas neste blog, outras não, como esta a seguir: Certa vez eu,  meus irmãos e um primo fomos a um baile num clube de um subúrbio do Rio, mais precisamente no Social  Ramos Clube. Era uma festa de formatura de uma turma de um colégio e como conhecíamos alguns dos formandos, la fomos nós. Depois de vararmos a Avenida Brasil embicamos para Bonsucesso, onde hoje se inicia a Linha Amarela e descemos na Rua Uranos até chegarmos a Ramos, que é um bairro logo depois. O Clube ficava numa rua alta e possuía, por conseguinte, uma ladeira. Como o MG estava com problemas no motor de arranque e para não pagar mico, parei numa rua atrás, que era uma ladeira propícia para o tranco. Sentamos numa mesa no final do salão para melhor apreciarmos o baile. Logo, outras mesas foram anexadas à nossa e, quando vimos, havia cerca de trinta pessoas comendo e bebendo à vontade no nosso grupo. Perto do final do baile o meu primo achou que a conta seria muito alta e que só tínhamos nós de homens para ratear as despesas, já que naquela época as garotas não pagavam nada, só levavam uma bolsa pequena com os apetrechos femininos, mas nada de dinheiro. A sua ideia então, era que fôssemos dançar e no meio da dança iríamos embora sem pagar nada. Falei que isto não daria certo, pois tinha algumas pessoas que já estavam nos olhando devido ao grande consumo de coisas que não paravam de chegar as nossas mesas. Também lembrei da dificuldade que o carro tinha em pegar, necessitando  de ser empurrado. Ele e meus irmãos falaram, então, que se eu estava com medo, era para ir primeiro para o carro, deixá-lo ligado e assim que pudessem eles iriam também. Assim se deu, saí do clube, fui para o carro e deixei a chave ligada na ignição. Passados alguns minutos, ouço uma correria e gritos de pe...e...e..ga, pe...e..e.....ga. pe....e...e...ga. O carro foi empurrado ladeira abaixo e pegou no tranco. Quando chegamos embaixo na Rua Uranos, descobrimos que meu primo havia ficado para trás. Não havia jeito de ir embora sem ele. Por isto, estacionei o carro longe do clube e voltei por outro lado, como quem não havia saído do baile. Procurando por meu primo fui até a parte de baixo do clube e o vi cercado de seguranças, oferecendo o seu caro blazer, que era de tropical inglês para saldar a conta. Falei na maior cara de pau que eu não havia saído do baile e que era o responsável pela conta e que estava ali para pagar a dívida, o que de fato ocorreu. Depois de pagar as despesas de mais de trinta pessoas que comeram e beberam sem parcimônia,  aí é que eu vi o que é um verdadeiro tranco. Mas tudo bem, naquela época, bem diferente de hoje,  era época  de vacas gordas, pois trabalhava num cartório de protesto de títulos, onde dinheiro não era problema. Havia o bastante para qualquer situação de emergência, sem prejudicar as minhas responsabilidades. Alguns dias atrás, recebi um telefonema de um colecionador de carros residente na Barra da Tijuca, no Nova Ipanema. Disse que depois de muitas dificuldades ele conseguira me localizar e que ele era o atual proprietário do MG. Só que estava com o recibo sem a minha assinatura e queria ver o que eu podia fazer para ajudá-lo. Pensei: se passados tantos anos, o carro ainda estava em meu nome é porque ele ainda faz parte da minha vida. Disse então para o aludido colecionador que já havia assinado um recibo de venda há muitos anos atrás e que não iria assinar outro. Desliguei o telefone com um sorriso juvenil e maroto no rosto.   

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

FESTA NO INTERIOR E AS ARTIMANHAS DE UM GAROTO ESPERTO


Quando garoto, estudei numa cidade do interior e havia em julho uma festa que durava uma semana. Nestas ocasiões, vinham muitos vendedores autônomos de fora e instalavam as suas barracas ao redor da praça central. Nestas barracas havia de tudo, desde comidas típicas a cachorros quentes, maçãs do amor, algodão doce, artesanatos, roupas e até as que eram chamadas barracas da sorte. Em algumas destas havia um coelho preso em uma caixa e depois solto pelo barraqueiro, que premiava aquele que havia escolhido o local onde o coelho fosse entrar; outras eram de tentar encaixar argolas em garrafas, que ficavam em cima de uma mesa. Como era criança, além de ser proibido participar de alguns sorteios e por ter pouco dinheiro, me contentava em ir nas barracas em que você comprava números escritos a caneta, dobrados em um pequeno papel que estavam dentro de um saco de pano. Era pagar, meter a mão no saco e tirar um papel para ver o que você  ganhou. O prêmio era o correspondente ao número que estava escrito no papel e ficava exposto em prateleiras na aludida barraca. Assim, por várias vezes, imaginando tirar um daqueles bons prêmios expostos nas prateleiras, fui a estas barracas e nada. Só conseguia tirar grampos de cabelo, caixas de fósforo, pentes vagabundos, prêmios que valiam aproximadamente um décimo do valor que havia pago para tentar a sorte. Certa feita, quando tinha aproximadamente uns treze anos, fui a uma destas barracas e comprei o direito de enfiar a mão no saco para tentar ver o que seria o prêmio. Como sempre, me parece que foi um pente pequeno chamado "flamengo". Só que, após isto,  fui para casa levando não só aquele "ótimo prêmio", como também o papelzinho com o número escrito a caneta. Vi que era um papel almaço com linhas azuis, cortado a tesoura em quadrados pequenos. Naquela época,  meu tio possuía um armarinho que tinha papel idêntico, bem como a caneta usada para grafar o número, para ficar igual o do papel comprado. Assim, voltei à barraca e para não gerar qualquer desconfiança adquiri um novo direito de tentar a sorte, que na verdade não existia, mas passei a observar os prêmios expostos e o respectivo número. Vi o melhor prêmio que poderia ganhar, caso tirasse o seu número. Voltei  para casa e já com os papéis almaço cortados na mesma disposição, comecei a procurar imitar o tipo de letra com o número do melhor prêmio. Depois de algumas tentativas, vi que havia conseguido fazer um semelhante. Assim à noite, quando o movimento era bem grande e acompanhado de quatro amigos, maiores e mais fortes, fui até a aludida barraca tentar ver se conseguia ganhar alguma coisa valiosa. Chegando lá, com aquele alvoroço todo, paguei o valor cobrado para o direito de tentar a sorte. Só que eu já tinha colocado entre os dedos de uma forma invisível, o papelzinho com o número desejado. Fiquei como que tentando apanhar um número no fundo do saco. Na verdade, o que eu estava fazendo era passar o número que estava entre meus dedos para a minha mão, sem pegar outro. Depois de alguns instantes, tirei o número e falei o número bem alto para todos ouvirem. As pessoas ali presentes, entre elas os meus amigos, quando viram que o número que eu gritara batera com o do best prêmio,  não acreditavam no que estava acontecendo, só ouvi dizerem: - Caramba você acertou em cheio! O barraqueiro ficou boquiaberto, não sabendo, a princípio, o que dizer, dado a surpresa de que foi tomado, pois com certeza aquele número não havia sido colocado no saco. Passados os primeros instantes de incerteza e vendo o barraqueiro que não poderia dizer que aquele número não havia sido colocado, senão a multidão que comemorava comigo poderia até linchá-lo, com muita raiva ele começou a gritar: - Saiu, saiu o grande prêmio, saiu!!! - Olha o felizardo ganhador, apontando para mim e já me entregando o cobiçado prêmio. Ao fazê-lo vi no seu olhar aquele ódio mortal,  cheio de pura raiva, como a dizer, você me paga seu moleque espertinho, mas se conteve. Fui para casa imediatamente com o grande prêmio e só voltei de novo a praça quando a festa já havia acabado e os barraqueiros ido embora. Naquela época pensei: pra esperto, esperto e meio. Hoje não faria mais isto, nem me aproximaria das barracas ou outros locais que lhe oferecem a oportunidade de tentar a sorte que não acredito... Foram coisas de criança, sem a devida instrução, mas fazer o que agora, apenas lembrar as minhas peripécias de moleque!!!         

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

AS CURIOSAS E O SAPATO FURADO


Com o intuito de estudar, na minha infância fui morar com uma tia e a avó materna em Carmo, uma cidade do Estado do Rio, que faz fronteira com o Estado de Minas Gerais. Isto porque, meus pais eram pobres, não tinham condições de pagar um colégio particular e naquela época havia poucas escolas públicas na antiga Capital e era bem difícil conseguir alguma vaga. Assim, cheguei em Carmo e procurei me adaptar ao modo de vida do interior, onde não havia  modismo e os mais velhos é que ditavam o que você deveria usar e não como é hoje, em que os nossos filhos já bem cedo fazem as suas escolhas e só querem usar roupas e tênis de marca. Por exemplo, naquela época, tênis só havia os sem marca, que só eram usados em desfiles escolares. No mais, eram sapatos tipo "boot" que varavam anos, tendo em vista que se trocava a sua sola inteira. Falando em sola, a usada não era a que se usa hoje, mas feita de borracha de pneus. Então, nós garotos, quando nos reuníamos,  ficávamos virando a sola  para mostrar qual era a marca do pneu usada pelo sapateiro. Uns diziam com orgulho: - O meu é Firestone. Outros alegavam: - Mas o meu é Goodyear ou Pirelli e saíamos procurando fazer derrapagens em alguma calçada lisa, procurando demonstrar a superioridade de um sobre o outro. Ao voltar para a casa de meus pais no Rio, levei aquela mania meio mineira de aproveitar ao máximo a coisa comprada, principalmente os sapatos. Então, certa vez, eu estava com um par de sapatos que no pé direito era só furos, sujando a meia de terra e me obrigando a sempre estar olhando para onde pisava, a fim de evitar pisar numa guimba de cigarro ainda aceso e queimar o pé. Vi  então, que teria de comprar outro par de sapatos porque aquele estava um bagaço. Estando no centro, fui até a Rua da Carioca e lá, depois de algumas escolhas, comprei o sapato e já fiquei usando o novo, mas falei para o vendedor que iria levar os sapatos velhos para o conserto. O vendedor franziu a testa como a dizer, este aí não serve para mais nada, mas me atendeu, depois de colocar os sapatos velhos na caixa do novo, embrulhou-a com um papel reluzente e colocou-a numa sacola de plástico, que tinha o nome e endereço da sapataria.  Assim, saí da loja e fui até a Avenida Rio Branco, a fim de pegar um ônibus para Copacabana. O ônibus estava quase vazio, praticamente um passageiro em  cada banco. Sentei num banco bem atrás e fiquei na janela para observar a paisagem do Aterro do Flamengo, que ainda não havia sofrido a transformação do magistral paisagista Burle Max. Passado algum tempo, comecei a raciocinar sobre o par de sapatos velhos que estava levando e vi que eles estavam muito ruins. Assim, comecei a pensar em como me desfazer dos mesmos. Quando o passageiro que estava no banco bem a frente se levantou para descer, indo para a frente do veículo, aproveitei e fui para o lugar vago, deixando no banco de trás a sacola com os sapatos velhos. Num ponto antes, já haviam entrado uma senhora idosa e uma jovem, aparentemente sua neta, e foram direto para o banco onde eu estava anteriormente sentado. Vendo a sacola e o cidadão que já iria descer, gritaram: - Senhor, senhor, você esqueceu a sua sacola! Ele, virando-se para trás e observando a sacola disse: - Não é minha. Soltando logo a seguir. Eu, que estava no banco logo a frente da senhora e sua neta, fiquei antenado e comecei a ouvir os seus comentários sobre a sacola deixada. A senhora idosa falou para a jovem: - Sacola bonita! O que será que tem dentro?  Em ato contínuo sacudiu a sacola e concluiu: - É sapato. A neta, muito curiosa, falou para a avó: - Vamos ver se é  de mulher, quem sabe não é um lindo e caro par de sapatos? - Pelo embrulho, o que está dentro deve ser sim. Então começaram a tirar da sacola aquele bonito embrulho que envolvia a caixa... E eu só ouvindo tudo no banco da frente. Quando descerraram o embrulho, abriram a caixa e viram aquele trapo de sapatos todo furado, disseram: - Que coisa horrorosa e fedida, parece coisa de mendigo... Arghhhhhhhhh!!! Eu no banco logo a frente não conseguia controlar o meu riso, vendo o desconforto daquelas duas, tentando se livrar da sacola. Pouco tempo depois soltei na Rua Barata Ribeiro, mas ainda ouvi a velha dizer para a neta: - Temos de passar numa farmácia para comprarmos álcool e desinfetar nossas mãos. Pensei: CURIOSIDADE MATA,  só  de  cheirar!