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segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A INOCÊNCIA ROUBADA


A bastante tempo atrás estava passando pela Rua do Rosário, no centro do Rio, quando resolvi parar para fazer um lanche no Bob`s que estava completamente vazio naquele horário. Depois de pedir as minhas coisas preferidas, sentei em uma mesa para desfrutar o meu sanduíche de atum. Mal tinha mordido um pedaço, quando fui abordado por um garoto bem novo com uma caixa, que me perguntou se eu gostaria de dar uma graxa em meus sapatos. A princípio, eu relutei alegando uma desculpa qualquer, mas ele foi insistente dizendo que precisava arrumar dinheiro para ajudar a sua mãe. Após a menção de tal fato e como eu tinha um tempo disponível, aquiesci, mas antes perguntei: - Quanto é? Ele me disse: - Três reais, que naquela época era algum dinheiro. Com este valor fixado, eu concordei e ele começou a efetuar o seu trabalho. Terminado o engraxe, muito embora constatasse que não fora muito bom o serviço, abri a minha carteira e tirei três reais entregando ao  menino, que se recusou a recebê-lo alegando que era treze reais. Eu estava discutindo sobre o valor acordado e o agora cobrado quando, uns cinco garotos maiores chegaram ao local e começaram a dizer, com ar de deboche: - Paga o trabalho do menor doutor. O garoto trabalhou e tem de receber. Notei que dois deles portavam estiletes e os mostrava de forma audaciosa. A lanchonete continuava vazia e sem segurança. Vi então que não possuía outra saída, senão pagar o que me cobravam, mesmo sabendo que era um golpe. Pouco tempo se passou quando estava eu fazendo outro lanche, agora no subsolo do Edifício Garagem Menezes Cortes e um outro menor me consultou sobre a possibilidade de engraxar meus sapatos. Na mesma hora eu disse: - Nem chega perto dos meus pés. Depois que o menino partiu, o garçom da lanchonete ouvindo isto disse: - Está um caso sério. Há uns dias, um senhor que estava lanchando foi abordado por um desses meninos e concordou em deixá-lo engraxar. Na hora de pagar o menor disse que era vinte e cinco reais, o senhor refutou alegando que era um absurdo, uma graxa daquele jeito não poderia ser mais do que cinco reais. Com esta pendência de valores sendo discutida, outros menores, amigos do menino engraxate, se aproximaram e começaram a ameaçar o senhor. Com isto ele viu que seria mais prudente pagar a extorsão feita. Puxou da carteira os vinte e cinco reais e passou para o menor. Este, ao ver a fragilidade do senhor, disse: - Vinte e cinco reais é para cada pé, os dois são cinquenta reais. O senhor teve de pagar para evitar um mal maior, que poderia até chegar a perda de sua vida, ante a impunidade desses pivetes. O garçom em adição disse: - Eles só não se deram bem com um outro senhor que, quando foi extorquido no valor cobrado, puxou de uma arma e encostando-a na cabeça do menor perguntou: - Quanto é mesmo que você está me cobrando pelo serviço? O menor disse: - Assim não vale doutor e foi embora sem receber nada. São coisas de um país de muitas leis, mas poucos cumpridores, infelizmente a infância anda sendo roubada de diversas maneiras, trabalho escravo as vezes sob a orientação dos próprios pais ou padrastos, que enviam seus filhos para os sinais de transito, vendendo itens para sustentar a família. Outros são adotados pelo tráfico e servem como aviões. Alguns pais, principalmente nas regiões mais pobres vendem suas filhas bem novas, a caminhoneiro e outros homens inescrupulosos. Alguns outros jovens tem a sua infância roubada por pedófilos. Sim, os jovens dos dias de hoje sofrem diversos ataques, que roubam a sua infância e nós temos a obrigação e o dever de defende-los antes que o mal se instale, a fim de evitar que aconteçam casos assim, onde crianças que deveriam estar apenas estudando e brincando, comecem praticando pequenos delitos e antes de entrarem na juventude já praticaram crimes graves, como furtos, assaltos e até mortes, aí já se instalou o mal de forma irreversível, sendo por conta disto, muitos deles mortos quando mal começaram a viver.     

sábado, 11 de dezembro de 2010

UMA VIAGEM PRA SANTOS


Certa ocasião da minha juventude, sem nenhum programa melhor num final de semana, eu e uns amigos que trabalhávamos num cartório resolvemos dar um passeio em Santos, para ver como eram as coisas por lá. Assim, de manhã bem cedo, pegamos a Dutra, pois a BR-101 que vai pelo litoral ainda não estava pronta. Chegamos à capital paulista por volta das 10:00 horas. Na Pauliceia depois de alguns bordejos, resolvemos ir a famosa Rua Augusta, para dar uma olhada e conferir a fama dos carros e motos que por lá transitavam. Um verdadeiro desfile de carrões incrementados, fazendo jus a música do Ronni Cord, "entrei na rua Augusta a 120 por hora".  Depois disso, partimos para o litoral do Estado pela estrada velha. Assim por volta das 13:00, estávamos na estrada perto de Diadema e resolvemos parar e almoçar numa churrascaria. Por ser um dia chuvoso, a churrascaria estava vazia, só havia nós de clientes. Tal churrascaria possuía música ao vivo à noite, pois havia vários instrumentos musicais. Então depois do almoço e de tomarmos algumas caipirinhas, resolvemos ir até o palco onde havia um piano, bateria e outros instrumentos de percussão. Sentei na bateria, De Bonis no piano, meu primo Luiz Carlos e Arilton Campos nos instrumentos de percussão, pandeiro e maracas. Começamos a tirar um som maneiro, com alguns de nós improvisando no vocal, como foi o caso do Antonio De Bonis, já demonstrando toda a sua versatilidade musical, o que se comprovaria mais tarde, ao tornar-se um consagrado diretor de musicais. O dono da churrascaria, ouvindo-nos tocar, foi logo se aproximando e perguntou-nos se não queríamos voltar à noite para tocar alguma coisa e que além de comermos e bebermos de graça, ainda receberíamos uns bons trocados, dependendo apenas da quantidade de pessoas que fossem até lá. Vimos que não era uma má ideia, pois não tínhamos nada a fazer, a não ser conhecer as praias de Santos que por causa do mau tempo não deveriam estar boas. Quando já estávamos resolvidos a voltar à noite para comermos e bebermos de graça e faturarmos algum din din, vi um grande furo num lado do bumbo central da bateria. Curioso, perguntei ao garçom que nos atendia o que causara aquilo. A princípio ele tentou dar algumas desculpas esfarrapadas, mas depois ele me disse que foi durante uma grande briga, inclusive com troca de tiros que houve lá à noite e um dos tiros acertou na bateria. Pra nós foi a gota d`água na nossa dúvida de voltarmos ou não àquele local. Achamos que era melhor irmos para Santos conforme projeto inicial e depois a São Vicente, o que foi feito mesmo debaixo de chuva copiosa, do que voltar àquele local em que nem músico era respeitado e poderia morrer com uma bala perdida, acertando-lhe as partes baixas!!!

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

MEMÓRIAS DE UM CONVERSÍVEL AMARELO







O cinema estava lotado, não porque o filme era um clássico ou um primor de qualidade. A razão do sucesso é que no papel principal atuava o Rei do Rock.  Logo nas primeiras cenas de "A Mulher Que Eu Amo", ele aparece para delírio geral, dirigindo um mini-conversível azul escuro de capota arriada. Aquelas cenas iniciais ficaram indelevelmente marcadas em minha mente, a ponto de ali mesmo, ao sair do cinema, ter decidido que um dia teria um carro daqueles. Alguns anos se passaram desde então, o Rei do Rock fora há tempos substituído pelos quatro garotos de Liverpool, quando um vizinho que estava servindo ao exército me informou que tinha ganho em um sorteio no seu quartel, nada mais nada menos que um MG e como ele necessitava era de dinheiro ofereceu-me para comprar. Fiquei extasiado com a proposta que poderia concretizar aquele meu sonho antigo, pois tal modelo era uma raridade e não se encontrava alguém disposto a vender os poucos existentes no país. No dia seguinte, estávamos no quartel onde ele servia para ver o carro. Foi amor a primeira vista. Aquilo que eu vira no cinema era inferior ao que agora eu constatava ao vivo. Era um belo MG TD 52 amarelo canário, capota e estofamentos pretos e muitas partes bem cromadas, inclusive o radiador e rodas raiadas que cintilavam ao sol. Para maior charme, a sua direção era do lado direito, como eram e ainda são todos os carros  ingleses. Procurei não demonstrar todo o entusiasmo que o veículo me causara, para que o seu preço não ficasse além das minhas possibilidades. O meu vizinho soldado havia ganho o veículo por uma ninharia, pois comprara apenas um dos mil bilhetes vendidos pelo antigo dono do mesmo, um capitão, que naquela ocasião estava ali presente e me falou das alegrias que o carro lhe proporcionara, informando-me ainda que adquirira tal veículo da filha do Embaixador da Inglaterra. Vi que, além da beleza, o conversível tinha pedigree. Para minha alegria, o preço pedido pelo soldado fora bem abaixo do que eu estava disposto a pagar para ter aquele carro dos meus sonhos. O negócio foi fechado ali mesmo no quartel. O problema agora era como dirigir um carro com direção do lado contrário e passar as marchas com a mão esquerda.  Até me acostumar foi bem difícil, mas depois vi até vantagens, pois eu podia encostar ao máximo no meio-fio sem bater nele. Já ultrapassar outro carro sempre foi um problema, pois tinha de colocar todo o veículo na contramão, para se ter visão do tráfego que vinha em sentido contrário; depois eu peguei o macete, que era ter uma boa distância do veículo que ia à frente. Em qualquer lugar que eu ia, o carro causava uma sensação em especial por ser sua direção do lado contrario e várias modelos famosas tiraram fotos apoiadas e até dentro dele, que foram publicadas em revistas da época, como por exemplo numa vez que eu o havia estacionado na Praia do Arpoador. Foram muitas as histórias vividas com aquele amarelinho, contadas por mim em um livro em fase de edição e hoje posso dizer que ele foi um divisor de águas, em termos de amizades e popularidade. O antes e o depois do MG. Infelizmente todo aquele glamour de suas linhas foram banalizadas pela cópia feita pelo MP Lafer. Hoje eu posso dizer que não foi o soldado o premiado naquele sorteio no quartel; com toda certeza eu fui o grande ganhador. 

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

AS INUSITADAS VIAGENS DE TREM SUBURBANO







Antes de existir o metrô, algumas vezes por necessidade ou por ser a melhor opção, eu fiz viagens de trem, quando tive de ir no subúrbio do Rio servido pela Central do Brasil ou pela Leopoldina. Na maioria das vezes aconteceram fatos pitorescos que me vêm a lembrança. Numa ocasião, por causa da greve dos ônibus, eu estava de manhã numa plataforma lotada esperando um trem para ir trabalhar. Depois de um longo período de espera, que só fez aumentar o número de passageiros, chegou aquele bicho comprido de ferro e aço e parou. Só que as suas portas continuavam fechadas, com exceção do vagão que estava a minha frente, que já veio com as portas abertas. Eu era o ponta de lança e fui o primeiro a pisar dentro do trem. A multidão veio logo atrás de mim me empurrando, sem nem me deixar pisar no chão, com isto, não pude me desviar para o interior do trem e acabei entrando de um lado e saindo do outro, vendo o mesmo partir e eu ali na plataforma contrária, com cara de bobo, tão desolado que até desisti de ir trabalhar naquele dia. Em outra ocasião, fui visitar num domingo um amigo que morava em Madureira, então ele me falou que estava pensando em ir ao Estádio Mario Filho assistir  Botafogo e Flamengo, me chamando para ir com ele. Ele falou que a melhor condução era irmos de trem. Fomos  para a plataforma e pegamos o parador que, nos dias de jogos, para na estação Maracanã, bem em frente ao estádio. Quando entramos no trem, embora não houvesse lugar para sentar, ele estava vazio, mas a cada estação entrava uma leva de gente, principalmente de torcedores, que nos fazia parecer sardinhas em lata. Depois de algumas estações, fui empurrado para uma parte em que não tinha onde me segurar, pois a chupeta ou alça de ferro que serve para tanto estava com sua mola virada para cima. Por consequência, eu ficava caindo em cima de uma ou de outra pessoa, que reclamavam. De repente, o trem deu uma freada brusca que fez as pessoas se acomodarem, saindo um pouco de onde estavam. Aproveitei aquela oportunidade do espaço que se abriu, dei um  salto e agarrei a tal chupeta, trazendo-a para baixo. Deu certo na subida, só que aconteceu outro problema: o espaço aberto se fechou. Eu não conseguia fazer meus pés chegarem ao chão por mais que eu tentasse. Assim, durante o trajeto de duas estações, eu viajei a bem dizer no alto, em cima das pernas de um brutamontes que chiou bastante, até que eu consegui colocar os pés no chão. Sim, andar de trem lá no subúrbio sempre foi problemático para mim, nunca foi meu forte, por isso resolvi que só iria andar num deles de novo quando houver o prometido trem bala que levará duas horas do Rio até São Paulo. Fora disto andar de trem  no Rio, nunca mais.     

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A VIDA É FEITA DE ESCOLHAS


Bem cedo pela manhã, ao acordarmos já temos de fazer escolhas: continuo ainda na cama descansando mais um pouco ou me levanto logo? Depois de tomarmos banho continuamos a série de escolhas: o que vestir, calçar, o que fazer para o almoço? E por aí vai. Devo começar um regime nesta semana ou deixo para a semana que vem? Sim, a vida é feita de muitas escolhas. A toda hora somos obrigados a decidir sobre coisas triviais do dia a dia, como também sobre coisas complexas e importantes que poderão mudar completamente o rumo de nossas vidas. Esta imensidade de escolhas que temos de fazer todos os dias pode nos estressar. Por isto, em algumas ocasiões, pedimos a ajuda de amigos ou pessoas mais experientes para nos auxiliar a decidir o que fazer. Para complementar, existem psiquiatras, psicólogos e vários livros de auto-ajuda que nos dão alguns conselhos de como devemos nos comportar ao ter que decidir sobre algo. Devemos nos lembrar que, UMA VEZ TOMADA A DECISÃO, A PARTIR DAÍ A RESPONSABILIDADE PELO ERRO OU ACERTO CABE A NÓS E NÃO A ALGUÉM. Sim, não podemos culpar ninguém caso a decisão resulte em erro e foi tomada com base em conselho de outrem. A culpa é e sempre será nossa. Para que haja o máximo de acertos na hora da decisão, levamos em conta a nossa experiência ou a de outras pessoas que passaram pelo mesmo dilema. Quando a decisão é feita com tempo há a oportunidade de se repensar, consultar, discutir e, com isto, a probabilidade de acerto é bem maior, do que quando nos vemos confrontados com o ter de decidir na hora, no ato, sem nenhuma preparação, louvando-se apenas na intuição. Nestas ocasiões, as vezes, fazemos escolhas completamente equivocadas, o que não faríamos se tivéssemos tempo para analisar os fatos. Muitas vezes, mesmo com um tempo razoável para raciocinar, ainda assim podemos decidir errado, isto porque somos humanos, falhos, sujeitos a erros inerentes a raça humana. Também podemos decidir algo como o melhor, mas surge um outro fator alheio à nossa vontade, que é o "acaso". Por exemplo: decidimos ir por uma rua que é o melhor caminho para o nosso destino, mas infelizmente pode acontecer no percurso um acidente ou uma bala perdida e podemos com isto, perder a vida ou ficarmos deficientes para o resto de nossos dias. Outras vezes, esta mesma decisão de ir por algum lugar pode nos levar a encontrar um ótimo emprego ou a encontrar a pessoa certa para vivermos para sempre, mudando completamente a direção de nossas vidas. Isto é puro "acaso" e não o destino, como muitos acham. Sim, a melhor coisa que podemos fazer é cercar-nos de todas as informações possíveis para que as nossas escolhas resultem em benefício nosso e dos que nos cercam, mas se assim mesmo não der certo, não adianta nos culpar por isto, simplesmente devemos compreender que não vemos os fatos de uma forma clara, limpa e perfeita, mas por uma minúscula janela que é a da experiência, uma espécie de espelho retrovisor do passado, que muitas vezes não serve para fatos novos. O mais importante é: NUNCA SE ESQUIVE DE DECIDIR ALGO OU DEIXE QUE OUTROS DECIDAM POR VOCÊ, eles apenas podem fornecer mecanismos e não a própria decisão que deve ser sua, pois QUEM FICA EM CIMA DO MURO, INDECISO, NÃO CONSEGUE NADA, NEM VAI A LUGAR ALGUM.    

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

FOGO NO CABELO NÃO

Muitas vezes nos metemos em confusão por nada, sem nenhum motivo, apenas por causa das circunstâncias. Me lembro de uma situação assim. Após sagrarmos tri-campeões no México e sermos muito bem tratados lá, o Brasil resolveu retribuir tal hospitalidade com um jogo da amizade contra os mexicanos. O jogo foi marcado para a noite no meio da semana no Maracanã. Sem termos programado nada antes, eu e um colega de banco que trabalhava comigo à noite, depois do expediente, resolvemos assistir tal partida, para ver de perto o melhor time de futebol que já tivemos. Estacionamos o carro e fomos comprar ingressos para a arquibancada. Chegamos aos guichês e não havia mais nenhum ingresso, a não ser para a geral que naquela época ainda existia.  Não vimos qualquer cambista vendendo bilhetes. Desistimos então de assistir o jogo e fomos ao local onde havíamos estacionado pegar o carro para irmos para casa assistir pela TV. Chegando lá, vimos que o carro estava cercado de veículos por todo o lado, o que tornava impossível sairmos de lá antes do jogo acabar. Decidimos então que o melhor a fazer era assistirmos o jogo mesmo na geral. Compramos os ingressos e procuramos ficar numa posição que se pudesse ver aquele dream team de Pelé, Tostão e Cia. Na minha frente, a princípio, estava tudo bem, sem nenhum obstáculo, mas depois ficou um sujeito com aquele cabelo black power imitando talvez outro craque da seleção, o Jairzinho, o que me obrigava a ficar de vez em quando pulando para ver direito o jogo. O pessoal da arquibancada não parava de jogar coisas em quem estava na geral. Reclamar era pior. Pois aí sim é que vinha uma chuva de bagaços de laranja, sacos d'água e outros líquidos menos nobres. De vez em quando eu reclamava do black, de que ele estava me atrapalhando ver o jogo, não só pela sua altura como por seu enorme cabelo e ele aí se mexia um pouco e abria espaço para eu continuar assistindo a partida. A chuva de troços continuava a cair solto e nos acertar. Sem que eu soubesse quem  foi o autor, alguém da parte de cima jogou um cigarro aceso no meio do cabelo seco do black; dali a pouco começou a sair uma fumaça e senti um cheiro forte de cabelo queimado. Depois de tirar a guimba acesa de seu cabelo, ele virou-se para trás, olhando fixamente em mim com muita raiva e disse: - Tudo eu aguento, mas FOGO NO CABELO NÃO. Não adiantou dizer que eu não fumava, que deveria ter sido o pessoal da arquibancada, mas ele já partiu pra cima de mim e antes que ele me acertasse um tapa, o jeito foi corrermos para outro local aos trancos e barrancos, no meio daquela enorme massa de gente, perdendo com isto boa parte daquele grande espetáculo, em que mais uma vez saímos vencedores.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

NOS BAILES DA VIDA


Durante alguns anos vivi só de música, tocando saxofone em um conjunto musical onde o baterista era meu pai. Fiz vários bailes em alguns lugares nobres e outros nem tanto e também toquei em algumas rádios, na época só havia Rádios-AM. Dentre os bailes que eu fiz houve alguns inusitados que permanecem até hoje na minha lembrança, vamos então a estes. Certa vez, fomos contratados para tocarmos na Associação dos Surdos e Mudos que ficava no bairro das Laranjeiras no Rio, perto de onde havia a antiga TV Continental. Imaginei: vai ser um dinheiro mole de ganhar; as pessoas são surdas, não vai haver necessidade de grandes esforços para fazer o baile. O mesmo será quase na base dos gestos. Ledo engano. Alguns dos associados, surdos, ouviam alguma coisa e estes é quem davam início as danças. Mas, para eles dançarem era preciso haver uma vibração forte, um som bem alto. Só sei que ao final do baile estávamos estourados e eu com o beiço inchado, necessitando de fazer bochechos na salmoura para melhorar. Numa outra ocasião, fomos tocar na Associação dos Moradores do Jacarezinho que ficava dentro da favela. Os táxis por nós alugados para levar-nos junto com os instrumentos, nos deixava num local um pouco distante, fora da favela, que naquela época não possuía ruas, só vielas. Assim, íamos a pé de onde o táxi nos deixou, carregando os instrumentos até chegarmos ao local do baile, uma  grande  casa  de dois andares. Estávamos lá tocando, quando vimos no fundo do salão uma grande briga, onde se jogava cadeiras, garrafas e outros objetos. Como a música que na ocasião tocávamos era lenta, não sei se um blue ou um samba canção, o presidente do clube foi até a gente e disse para tocarmos um outro tipo de música mais animada, para  que mais pessoas  passassem a dançar e menos  pessoas ficassem envolvidas com a briga que continuava. Na mesma hora demos um corte musical e atacamos de um samba bem agitado, daqueles que não deixam ninguém ficar parado. Estávamos assim tocando animados quando se aproximou do palco um cidadão de porte atlético e perguntou: - Vocês não estão vendo a briga que está acontecendo nos fundos do salão? - Vocês têm que parar de tocar. O presidente do clube ouvindo aquela ordem  para que nós parássemos de tocar nos disse: - Se vocês pararem de tocar, não vão receber ao final  do baile. Algum tempo depois, o troglodita foi mais uma vez até a gente e ameaçou:  - Se continuarem tocando vão levar um tiro cada um. Ficamos perplexos, sem saber o que fazer dali pra frente: Ou ficávamos sem receber nada ou enfrentávamos aquela ameaça de levarmos um tiro. Passado algum tempo, aquele cara que nos havia ameaçado e outros que estavam envolvidos na briga, foram jogados escada abaixo pelos seguranças do clube. O baile continuou normalmente até o final e recebemos o combinado do tesoureiro da Associação. O problema agora era como sair de madrugada daquela favela, andando por aquelas vielas tortas e escuras a pé até chegarmos aos carros, que já deveriam estar nos esperando do lado de fora. O medo de encontrar aqueles que nos havia ameaçado, fazia com que andássemos todos juntos, de olhos e ouvidos atentos a quaisquer movimentos e com passos acelerados, quase correndo. Eu me lembro que ia com a caixa do meu instrumento na frente como se fosse um escudo para me proteger das possíveis balas de um três oitão, única arma disponível naquela época, tão diferente do pesado armamento de hoje. Graças a Deus não houve mais nada e chegamos sãos e salvos nos carros que partiram a toda velocidade. É, músico às vezes passa por situações bem difíceis tocando nos BAILES da VIDA, mesmo assim era muito gratificante, pena que este tempo acabou, durou apenas uns três anos mas foi o suficiente para marcar indelevelmente a minha vida. Meu pai ainda continuou sendo baterista de um conjunto de bossa nova por mais alguns anos, depois também parou de fazer bailes, só tocando na nossa casa, que era como um clube, onde havia bailes quase todo final de semana. GOOD TIME!!!